Semana especial: Piano vermelho – Personagens

Hoje, no terceiro post da semana especial de Piano vermelho, vamos falar sobre os personagens da história. Se você ainda não conferiu os textos anteriores, clique aqui para ir para a resenha do livro e aqui para a comparação entre Piano e Caixa de pássaros. Só avisando que esse post pode conter spoilers sobre a história de Piano vermelho, então sugiro só continuar a leitura se isso não lhe importar.

Eu sou do time que acha que uma boa construção de personagens pode me fazer relevar algumas incoerências do universo criado pelo autor (no caso de histórias fantásticas). Acredito que um personagem complexo, coerente e interessante acaba por despertar escolhas autênticas no enredo, dando vida à obra tanto quanto quem escreve.

Em Piano vermelho, nosso protagonista, Philip Tonka, é um músico de 30 e poucos anos com uma fama considerável. Já participou da banda do exército, motivo pelo qual os oficiais buscaram sua ajuda para identificar a origem do misterioso som que estava atordoando pessoas e desativando armas. Philip possui uma relação muito íntima com a música e a inspiração para compor, e essa ligação é o que motiva o personagem a aceitar o convite do exército e embarcar na missão para o deserto do Namibe, na África.

Philip é muito apegado aos outros integrantes da Os Danes, banda da qual é pianista. Todos tocaram juntos no exército mas, apesar do sucesso anterior, não conseguiram mais emplacar nenhum sucesso após o fim da Segunda Guerra Mundial. Seus companheiros de banda também embarcam para o deserto do Namibe e o laço afetivo entre eles ajuda a tornar dolorosa cada perda ao longo da expedição, conforme o som se revela.

Ainda no cenário do passado, já que a história de Piano vermelho possui duas linhas temporais, temos o sargento Lovejoy, um misterioso homem que resolveu continuar no exército mesmo após ser rebaixado. Lovejoy é um personagem intrigante que garante boas revelações ao longo do livro, porém senti um certo exagero em seu comportamento em alguns momentos. Em todo caso, é comum que soldados que lutaram em guerras apresentem traços de estresse pós-traumático e comportamentos considerados estranhos, então aceitei de peito aberto as bizarrices que Malerman escreveu para ele.

De volta para o presente, temos dois personagens que se destacam: primeiro, o Dr. Szands, um médico psiquiatra que parece ter saído diretamente de um filme de terror. Além de não demonstrar a menor empatia pela situação de Philip, Szands consegue a proeza de apresentar comportamentos mais estranhos que os do sargento Lovejoy. Seu foco é curar Philip dos ferimentos causados pelo som, já que o exército parece ter mais algum interesse no músico.

Segundo e mais problemático, temos a enfermeira Ellen, que posteriormente se torna aliada de Philip e está determinada a salvar nosso protagonista das mãos do Dr. Szands. O que me incomodou na personagem foi o fato de, em determinado ponto da história, ela desenvolver uma paixonite súbita por Philip. Conforme conhecemos sua história antes de trabalhar no hospital Macy Mercy, entendemos a carência de Ellen e de onde vem sua necessidade de cuidar dos outros. Mas a maneira como ela abre mão da própria vida pelo músico e sobrepõe os interesses dele aos dela me fez questionar esse relacionamento conveniente.

Fui objetiva na descrição dos personagens e fiz questão de ressaltar o principal ponto que chamou minha atenção em cada caso. No entanto, como falei na resenha de Piano vermelho, o clima de terror e estranheza desse livro não funcionou para mim, assim como a construção de alguns personagens. Os papéis estereotipados (Szands como o vilão, Ellen como a mocinha, por exemplo) me incomodaram de verdade, pois a todo momento eu fiquei esperando que esses personagens saíssem de seu próprio clichê.

De qualquer forma, acho importante que cada um tire suas próprias conclusões, e é por isso que incentivo a leitura de Piano vermelho. Aliás, gostaria muito de debater com alguém que já tenha lido e gostado da história! Se está curioso(a), não deixe de participar do sorteio que está rolando aqui no blog (clique aqui para participar). Se quiser mais um gostinho, recomendo ouvir esse teaser feito pela Editora Intrínseca:

Boas leituras macabras!

Semana especial: Piano vermelho – Semelhanças e diferenças com Caixa de pássaros

Se você caiu de paraquedas por aqui, saiba que esse é o segundo post da semana especial inteiramente dedicada ao livro Piano vermelho, de Josh Malerman, realizada em parceria com a Editora Intrínseca. Ontem teve uma resenha geral da obra e, ao longo da semana, estarei complementando minha opinião sobre o livro abordando tópicos específicos. O tema de hoje é: quais são as semelhanças e diferenças entre Piano vermelho e Caixa de pássaros? Caso nunca tenha lido o livro anterior de Malerman, confira a resenha neste link.

Foto: Intrínseca

De cara, é possível perceber que o autor gosta de trabalhar o medo através dos sentidos básicos – sentidos esses que usamos involuntariamente e que são quase impossíveis de nos privarmos sem intervenções externas. Enquanto em Caixa de pássaros o motivo do medo é algo que não podemos nos deixar ver, em Piano vermelho temos algo que não podemos nos deixar ouvir. Em ambos os casos, se entregar à curiosidade traz consequências irreversíveis para quem o faz.

Outra semelhança entre os livros são os capítulos intercalados entre passado e presente. Josh escolhe seguir as mesmas duas linhas narrativas para Caixa e Piano: 1) como o personagem se encontra em determinada situação crítica e 2) como ele pretende sair daquela situação e buscar sua salvação. Nem preciso dizer que, nos dois casos, essa mistura resulta em uma história frenética que nos deixa loucos pra descobrir o final, certo?

Uma diferença que vai interessar os que descobriram Malerman por Caixa de pássaros e estão pensando em arriscar a leitura de Piano vermelho: nesse último, temos um caso muito menos misterioso e infinitamente mais visual (afinal de contas, em Caixa, os personagens estavam quase sempre vendados). Portanto, recomendo abrir a mente para essa nova abordagem de terror, que infelizmente não funcionou pra mim, mas com certeza funcionará para muitos leitores por aí.

E aí, curioso(a) para conhecer a história de Piano Vermelho? Não esqueça de participar do sorteio de um exemplar do livro (clique aqui para participar). Se você não quiser esperar, também pode adquirir seu exemplar por este link e ajudar o Chovendo Livros a crescer. ♥

Semana Especial: Piano vermelho – Resenha

Já falei diversas vezes por aí que Caixa de pássaros foi o livro que li mais rápido em toda a minha vida (clique aqui para conferir a resenha). Concluí a leitura em apenas cinco horas e lembro que nem ao menos levantei nesse meio tempo. A história me prendeu de uma maneira que passei a admirar o estilo de escrever suspense de Josh Malerman e, desde que a Editora Intrínseca anunciou que o autor estava escrevendo seu novo livro, passei a aguardar ansiosa pela obra. Piano vermelho chegou aqui em casa há alguns dias e, como era esperado, eu fui correndo devorá-lo.

Piano vermelho conta a história de Phillip Tonka, um homem que se encontra em uma cama de hospital e que está tão debilitado que não consegue se mexer de maneira alguma. Em seus pensamentos, Phillip nos conta sobre um misterioso som, que seria a causa de seus ferimentos misteriosos. Sim, você não leu errado: um som.

Os capítulos no hospital são intercalados com os capítulos do passado, que nos explicam o que raios era esse som que deixou o corpo do protagonista completamente destruído. Descobrimos que Phillip fazia parte da banda de rock The Danes, responsável por grandes hits na época. Descobrimos também que estamos ambientados em um cenário pós Segunda Guerra Mundial e que a The Danes foi enviada pelo exército para o deserto do Namibe, na África, para descobrir a origem do tal som misterioso.

O perigo começa quando Phillip percebe que o Dr. Szands, médico psiquiatra responsável pela sua recuperação, parece estar escondendo algo, apresentando um comportamento nada convencional para um profissional. Em contrapartida, a enfermeira Ellen, responsável pelos cuidados de Phillip, se mostra uma grande amiga e aliada, auxiliando nosso protagonista a ligar os pontos do mistério envolvendo o hospital e do som aterrorizante que destruiu seu corpo.

Os capítulos de Piano vermelho são curtos e misturam passado e presente na apresentação dos acontecimentos, o que garante ao livro um ritmo acelerado, deixando o leitor sedento para saber como as peças desse quebra-cabeça se encaixarão. A sensação de que Phillip está sendo observado a todo momento confere um toque de claustrofobia, familiar para quem conheceu o estilo do autor através de Caixa de pássaros.

A maneira como Josh Malerman resolveu o enigma criado em Piano vermelho, no entanto, acabou por prejudicar minha experiência com o livro. A grande quantidade de explicações sobre a origem do som ouvido por Phillip acaba tirando o caráter aterrorizante da história e transformando-a em uma narrativa conspiratória com um quê de sobrenatural. Mas vou parar por aqui para não revelar mais detalhes, já que não quero estragar a experiência de leitura de ninguém!

A propósito, a convite da Editora Intrínseca, essa semana será dedicada inteiramente ao livro Piano vermelho. E para todos entrarem no clima, estarei sorteando um exemplar do livro. Para participar, basta se inscrever no canal do Chovendo Livros no YouTube e seguir o perfil do blog no Instagram. Também preciso de um endereço de e-mail válido, pois é por ele que entrarei em contato com o ganhador. Você pode se inscrever até o meio dia do sábado, 30/09. O resultado sairá no mesmo dia à tarde e será divulgado nas redes sociais do Chovendo Livros.  Lembrando que o ganhador terá 48 horas para responder ao e-mail, caso contrário outro participante será sorteado. Ufa, agora que já expliquei tudo é só você se inscrever pelo formulário abaixo:

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Conto com você para embarcar comigo nessa semana especial de Piano vermelho. Boas leituras misteriosas!

Ficha técnica do livro
Título: Piano Vermelho
Autor: Josh Malerman
Tradutor: Alexandre Raposo
Editora: Editora Intrínseca
Ano: 2017
Gênero: Ficção
Páginas: 320

Este livro foi lido e resenhado em parceria com a Editora Intrínseca. ♥
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Resenha: Minha vida fora dos trilhos

Quem já acompanha o Chovendo Livros sabe que, no ano passado, rolou por aqui uma semana especial do livro Em algum lugar nas estrelas (clique aqui para conferir). O estilo da autora Clare Vanderpool fez desta uma leitura muito especial na época, pois explorava de forma sensível e original temas como o autismo, a morte e a amizade. Por esse motivo, quando a DarkSide Books anunciou em maio que publicaria outro livro da autora, intitulado Minha vida fora dos trilhos, eu logo fiquei empolgada para ler – algo me dizia que Vanderpool me conduziria novamente por uma narrativa mágica e inesquecível. Spoiler: eu estava certa.

Em Minha vida fora dos trilhos nós acompanhamos a jornada de Abilene, uma menina de 12 anos que foi enviada pelo pai para a pequena cidade de Manifest, sob a alegação de que ele precisava realizar um trabalho pesado na estrada de ferro de Iowa e não considerava aquele um lugar adequado para Abilene. Ao chegar em Manifest, nossa protagonista conhece Shady, o homem que fica encarregado de cuidar dela até seu pai retornar do serviço, dali cerca de um mês. Manifest é o que podemos classificar como uma cidadezinha do interior largada às traças. Mas o que, num primeiro momento, parece um lugar entediante, acaba por revelar grandes histórias.

 Percebi que ia levar um tempo para aprender o jeito daquela terra. Mas não tinha problema. Essas meninas eram muito simpáticas, a Coca-Cola descia bem e, no outono, eu estaria longe, bem longe, disse a mim mesma, empurrando para o lado a insegurança que ia e voltava. (p. 48)

Abilene e seu pai, Gideon, sempre estiveram acostumados a viajar de trem (às vezes clandestinamente) para diversos lugares dos Estados Unidos. A vida nômade acaba por se tornar o verdadeiro lar de ambos, e por esse motivo a menina não consegue enxergar Manifest como um lar – mesmo porque, sua estadia ali será temporária. Esse pensamento distancia Abilene dos outros habitantes. Há uma passagem interessante em que ela nos conta sobre o que classifica como universais: pessoas que falam e se comportam de maneira tão previsível que você muito provavelmente encontrará um exemplar em cada lugar que conhecer. Essa demonstração inocente de preconceito é uma atitude muito identificável, já que estamos acostumados a fazer julgamentos sem antes conhecermos as pessoas.

Um dia, Abilene encontra, escondido sob o assoalho do seu quarto na casa de Shady, uma caixa contendo vários objetos peculiares, entre eles uma isca de anzol e um charuto. Mas o que mais chama a atenção dela é uma carta, datada de 1918, que, dentre outras coisas, informa que um tal Cascavel está vigiando a cidade. Isso, obviamente, intriga Abilene, que junto de duas amigas que conheceu na escola começa a explorar Manifest atrás de pistas de quem poderia ser Cascavel.

Em uma de suas andanças pela cidade, Abilene conhece a srta. Sadie, uma mulher solitária que vive um uma casa soturna, protegida por portões de ferro peculiarmente decorados com a palavra Perdição. A srta. Sadie prende a atenção de Abilene quando começa a falar sobre os objetos contidos na caixa encontrada pela menina, mencionando até mesmo os nomes do remetente e do destinatário contidos na carta que falava sobre Cascavel: Ned e Jinx. Empolgada com as histórias contadas pela vidente e vislumbrando a possibilidade de conseguir desvendar a identidade de Cascavel, Abilene passa a descobrir mais sobre o passado de Manifest e seus habitantes, e principalmente sobre os protagonistas da carta que encontrou.

Quando há sofrimento, procuramos um motivo. E é mais fácil encontrar esse motivo dentro de si mesmo. (p. 143)

O livro se passa em um contexto pós Primeira Guerra Mundial até a Grande Depressão dos Estados Unidos e se aproveita de alguns acontecimentos desse período para compor a jornada de seus personagens. Apesar de ser uma cidade fictícia, não foi à toa que a autora escolheu situar Manifest no estado do Kansas, conhecido por abrigar imigrantes latinos, europeus e africanos ao longo de sua história. Foi nesse período também que a Ku Klux Klan ganhou força nos EUA, instaurando uma sensação generalizada de medo e repressão em negros e imigrantes.

Os capítulos de Minha vida fora dos trilhos são intercalados entre as aventuras de Abilene, o mistério envolvendo Ned e Jinx (remetente e destinatário da carta contida dentro da caixa) e alguns recortes do jornal local, contendo reportagens que complementam a história contada pela autora. Aliada a capítulos curtos, essa troca de focalizadores torna a leitura rápida e divertida, e os ganchos no final de cada capítulo não vão deixar você largar o livro.

Como uma fã antiga de Em algum lugar nas estrelas, posso garantir que Clare Vanderpool consegue reproduzir em Minha vida fora dos trilhos (que foi escrito antes, apesar de publicado aqui no Brasil posteriormente) o mesmo clima saudosista. Enquanto no primeiro ela se vale da música pra evocar uma época passada, aqui nós temos o projeto gráfico auxiliando nessa tarefa, com os recorte de jornal diagramados como antigamente. A história de Ned e Jinx também se encarrega de nos levar para tempos distantes, onde a Primeira Guerra Mundial teve início e os Estados Unidos receberam um grande número de imigrantes advindos dos mais diversos lugares do mundo. É através dos dois que descobrimos também os segredos escondidos em Manifest e o passado de alguns moradores, que surpreendem Abilene e, com certeza, também surpreenderão você.

Naquela noite houve solidariedade entre as essas reunidas no bar de Shady. Uma a uma, todas saíram das suas trincheiras e se aventuraram na terra de ninguém. (p. 176)

Minha vida fora dos trilhos contém a sensibilidade característica da autora para lidar com temas complexos. Talvez sua escolha por protagonistas crianças auxilie o leitor a também ver o drama de almas marcadas pela Primeira Guerra Mundial com uma lente mais inocente e otimista, que nos convence que, apesar de todas as dificuldades, ainda podemos dar a volta por cima e superar o que um dia nos derrubou.

Eu escrevi essa resenha ouvindo a excelente playlist montada pela DarkSide Books. Me ajudou muito a resgatar o clima do livro, portanto recomendo que vocês também escutem quando pegarem Minha vida fora dos trilhos para ler:

Espero que tenham gostado da resenha. Boas leituras nostálgicas!

Ficha técnica do livro
Título: Minha vida fora dos trilhos
Autora: Clare Vanderpool
Tradutora: Débora Isidoro
Editora: Darkside Books
Ano: 2017
Gênero: Ficção
Páginas: 320

Este livro foi lido e resenhado em parceria com a DarkSide Books. ♥
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Resenha: A Leitora (Mar de Tinta e Ouro #1), Traci Chee

Imagine um mundo onde não existem livros de nenhum tipo. Pra ser mais exata, nem a escrita existe, e todas as histórias e conhecimentos são passados de forma oral. Ninguém ao menos sabe ler. Ficou desesperado? Pois é sobre essa premissa que a história de A Leitora vai se desenrolar. A Leitora é o primeiro livro, e único publicado até então, pertencente à trilogia Mar de Tinta e Ouro, escrita por Traci Chee. O exemplar que li foi gentilmente cedido pela Plataforma 21 para os membros do Vórtice Fantástico, clube de leitura que faço parte aqui em Porto Alegre.

Logo no primeiro capítulo somos apresentados a Sefia, uma menina de aproximadamente 16 anos, e sua tutora Nin. As duas vivem uma vida de nômades, passando de cidade em cidade na região de Kelanna para vender as peles dos animais que caçam. Por ser conhecida como uma ladra, Nin é uma fugitiva da lei, então sobra para Sefia abordar potenciais clientes e vender a mercadoria. Na volta de uma das peregrinações de Sefia para a cidade, ela presencia dois soldados vestidos de negro torturando Nin e a levando embora com eles. Horrorizada e escondida no meio de arbustos enquanto observava a cena, em seu íntimo, Sefia sabia porque aquelas pessoas vieram atrás delas.

Lembra que eu falei no início que estamos em um mundo onde não existem livros? Pois bem, acontece que Sefia guarda consigo um objeto idêntico ao que conhecemos hoje como um livro. É claro que ela não sabe que aquilo é um livro, o que a faz ficar ainda mais intrigada sobre a importância daquele objeto tão peculiar e que traz páginas e páginas de símbolos que ela não faz ideia do que significam. Tudo o que ela sabe é que foi por conta daquele objeto que sua tia Nin foi sequestrada e que, há anos, fez com que a mesma organização sinistra, liderada pelo maléfico Serakeen, viesse atrás de seu pai.

Sefia está determinada a encontrar Nin e punir as pessoas que a torturaram e a levaram embora. Ela então partirá em uma caçada por Kelanna atrás dos soldados misteriosos, e no meio do caminho encontrará aliados fiéis e também grandes mistérios relacionados ao objeto misterioso que leva consigo. Mal sabe Sefia que ela, o livro, os seus aliados e Serakeen possuem muito mais em comum do que ela podia imaginar.

O universo criado por Traci Chee é bastante original, não podemos negar. Imaginar um mundo onde o principal recurso que permitiu à humanidade registrar seu conhecimento e, consequentemente, evoluir, é uma premissa bem ousada. Eu estava curiosa para saber como isso afetaria na construção de mundo de A Leitora, mas a verdade é que um fato tão importante teve pouca ou nenhuma influência no desenvolvimento de Kelanna. As pessoas possuem todos os tipos de objetos que exigem algum tipo de registro escrito e pesquisa para serem fabricados: armas de fogo, navios, casas, roupas e acessórios relativamente elaborados (botas, cintos, armaduras). O comércio também parece se desenvolver sem nenhum empecilho, existindo inclusive grandes mercados ao ar livre nas cidades, onde Sefia e Nin vendiam suas peles.

Um dos personagens mais interessantes e carismáticos, na minha opinião, surge nos primeiros capítulos e é batizado por Sefia de Arqueiro. O menino misterioso é encontrado pela protagonista preso em uma caixa carregada por uma comitiva de capangas de Serakeen, que ela encontra em suas andanças pela floresta. A caixa em que Arqueiro era mantido prisioneiro possuía gravada no topo o mesmo símbolo presente na capa do objeto misterioso carregado em segredo por Sefia (o livro, no caso). Arqueiro não fala, e ele e Sefia precisam desenvolver uma maneira própria de se comunicar – o que acabou por ser uma maneira muito positiva de representar pessoas mudas em uma história de fantasia. Por esse motivo, algumas decisões tomadas pela autora no final desse primeiro livro me deixaram deveras decepcionada.

Paralela à história de Sefia, acompanhamos a trajetória do capitão Cannek Reed e sua tripulação no navio Corrente da Fé, que buscam por um tesouro nada convencional. Acompanhamos também a história de Lon, um menino que é artista de rua e possui um dom especial (parecido com o que Sefia descobre possuir durante o livro) e por conta disso é convocado por um homem para se tornar um Aprendiz n’A Biblioteca – um lugar onde, pasmem, existem vários livros. A maneira como essas duas histórias se entrelaçam com a trajetória de Sefia são dois pontos altos no livro. É percebido que Traci Chee criou uma maneira muito particular de como o espaço e o tempo funcionam em seu universo e isso é o que estou mais curiosa para saber em detalhes nos livros posteriores.

A estrela de A Leitora, no entanto, está no projeto gráfico do livro, desenvolvido especialmente para conversar com a própria história e com nós leitores. De mensagens escondidas e palavras que precisam ser caçadas entre as páginas até borrões e parágrafos riscados em que é impossível ler o que está escrito, o projeto gráfico foi um show à parte e, na minha opinião, se destacou mais que o enredo criado pela autora, que acabou por não me surpreender tanto assim.

A Leitora traz metáforas bonitas sobre o que é um livro e como pessoas, em seu universo particular, também são grandes livros contendo seu passado, presente e futuro. Conforme descobrimos que os livros existem, sim, nesse universo, e que somente algumas pessoas podem ter acesso a eles, podemos levantar questionamentos interessantes sobre censura. Porém, em certo momento, a autora define que o ato de conseguir ler (tanto livros como pessoas) é algo mágico, o que pra mim só reforçou o fato de existirem pessoas “especiais” e que merecem ter acesso ao conhecimento.

Entendo que esse é apenas o primeiro livro de uma trilogia e que muita coisa ainda está por vir, mas acredito que um livro deve bastar-se por si. A Leitora abre muitos questionamentos e possibilidades e acaba por não responder nada ao leitor nesse primeiro volume. Isso me causou mais frustração do que curiosidade para continuar a trilogia, mesmo que eu pretenda fazer isso de qualquer maneira já que não consigo controlar a minha própria curiosidade.

E você, já leu ou está curioso(a) para ler A Leitora? Conte nos comentários quais as suas expectativas em relação à história e o que você achou da resenha. Boas leituras fantásticas!

Ficha técnica do livro
Título: A Leitora
Autora: Traci Chee
Tradutor: Edmundo Barreiros
Editora: Plataforma 21
Ano: 2017
Gênero: Ficção
Páginas: 464

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Resenha: Destinos e Fúrias, Lauren Groff

Barack Obama, o eterno ex-presidente norte americano favorito segundo a opinião popular mundial, foi responsável por garantir o sucesso das vendas de diversas obras literárias, com suas famigeradas listas de livros de cabeceira. Lembro que o primeiro livro a ser lançado ao estrelato graças à indicação de Obama foi Onde Vivem os Monstros, que inclusive ganhou uma versão para as telonas. Toda Luz Que Não Podemos Ver também figurava na lista e ganhou uma semana especial aqui no blog (clique aqui para conferir). Minha última empreitada nas recomendações de Obama foi Destinos e Fúrias da autora Lauren Groff, que além da aprovação do ex-presidente, foi declarado pela Amazon como o melhor livro publicado em 2015. The stakes were high!

A primeira coisa que chamou minha atenção na estrutura de Destinos e Fúrias é que o livro é dividido em duas partes, batizadas de acordo com o título. Na parte Destinos, somos apresentados ao personagem Lotto, e acompanhamos sua vida a partir do seu nascimento. Lotto nasceu em uma família de posses, e a morte prematura do seu pai, aliada à outras experiências durante a jornada escolar, moldaram sua personalidade de maneira peculiar. De criança tímida ao jovem que mais fazia sucesso com as mulheres na faculdade de Artes, conseguimos sentir na pele a vida intensa de Lotto através das descrições sensíveis da autora.

A existência boêmia e promíscua de Lotto sofre uma reviravolta quando ele conhece Mathilde, uma misteriosa garota que foi sua colega na faculdade, mas que só conheceu próximo de sua formatura. A paixão à primeira vista foi tamanha que logo após a formatura, Lotto e Mathilde casaram e juntos passaram a viver uma intensa lua de mel.

A essa altura da resenha você deve estar achando que Destinos e Fúrias é uma espécie de livro erótico que fala de amor e relacionamentos de uma forma dramática e surreal. Calma, que eu já vou chegar lá.

Ainda na parte Destinos, acompanhamos a jornada matrimonial de Lotto e Mathilde, no início como um casal duro que mobiliou e decorou o apartamento com objetos encontrados no lixo e posteriormente como um casal celebrado devido ao estrelato de Lotto como dramaturgo. Ao mesmo tempo, acompanhamos os sacrifícios feitos por Mathilde, como é comum em muitos relacionamentos até hoje onde a mulher se sacrifica pelo bem estar emocional e o sucesso profissional do marido. Essas atitudes podem passar despercebidas pelos leitores menos atentos, já que, até então, estamos acompanhando tudo pela visão de Lotto. E é após uma reviravolta na vida do casal que a parte Fúrias inicia.

Ao contrário de Destinos, Fúrias é totalmente narrado por Mathilde. E se em Destinos acompanhamos Lotto desde seu nascimento até a vida adulta, em Fúrias começamos acompanhando uma Mathilde madura que, aos poucos, nos conta sobre sua história de vida. Seu jeito enigmático, que fez Lotto se apaixonar à primeira vista, é muito mais que apenas charme, e mergulhar em sua infância e adolescência sombrias nos dá uma visão muito diferente da personagem que havíamos formado até então.

Se você está pensando em pegar Destinos e Fúrias para ler, de imediato já aviso que esse não é um livro para ser devorado, e sim para ser lido aos poucos – o que será necessário para digerir todos os acontecimentos apresentados pela autora. Lauren Groff entrega em apenas 368 páginas um desenvolvimento de personagens que deixaria George Martin com inveja (sim, me rendi à leitura de As Crônicas de Gelo e Fogo recentemente). Além de abordar temas que envolvem o relacionamento longo de um casal, o livro pincela situações como abuso sexual, consequências da fama e como o meio influencia o indivíduo.

Destinos e Fúrias é uma obra para quem busca uma história de amor crua e realista, já que o amor romântico e idealizado dificilmente perdura após os primeiros anos de um relacionamento. Ao mesmo tempo, nos mostra dois personagens com histórias de vida e personalidades muito bem desenvolvidas, tornando palpáveis e críveis as atitudes que tomam ao longo do livro. Se essa é sua praia, pode mergulhar na história sem medo (só tome cuidado com as ondas, que não estampam a capa à toa).

Ficha técnica do livro
Título: Destinos e Fúrias
Autora: Lauren Groff
Tradutora: Adalgisa Campos da Silva
Editora: Intrínseca
Ano: 2016
Gênero: Ficção
Páginas: 368

Este livro foi lido e resenhado em parceria com a Intrínseca. ♥
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(Re)visitando Hogwarts: Apresentação

Que Harry Potter é uma das paixões da minha vida vocês já estão carecas de saber. E pra deixar esse dia 31/07, aniversário do nosso querido bruxinho, ainda mais divertido, que tal começarmos um projeto de leitura que diz respeito ao mundo mágico criado pela rainha J. K. Rowling?

Idealizado pela Nathalie Martins do canal FaNATic, o projeto (Re)visitando Hogwarts tem como objetivo exatamente o que o nome diz: revisitar a escola de magia e bruxaria sob um novo olhar, buscando coisas que talvez tenham passado despercebidas nas leituras anteriores.

A ideia é fazer a releitura dos sete livros de maneira calma e divertida, sem prazos loucos de conclusão. É por isso que teremos o mês de agosto inteirinho para finalizar Harry Potter e a Pedra Filosofal. As datas de leitura dos próximos livros serão divulgadas aos poucos, após a conclusão de cada leitura. Vamos ir com calma que é pra ninguém sofrer por antecipação, risos.

Abaixo você confere todos os canais que estão participando do (Re)visitando Hogwarts. Não esqueça de acompanhar o projeto por lá também!

ϟ Barbara Demerov (Cinematecando)
https://www.youtube.com/cinematecandobr

ϟ Carissa Vieira
https://www.youtube.com/carissavieira

ϟ Jaqueline Andreta (Nerdices da Jaque)
https://www.youtube.com/JaqueAndreta1302

ϟ Juliana Minotto (Máquina de Escrever)
https://www.youtube.com/JulianaMinotto

ϟ Larissa Andrioli (Sonseriníssima)
https://www.youtube.com/sonseriníssima

ϟ Lígia Villon
https://ligiahelena.wordpress.com

ϟ Nathalia Munhoz (Bits ‘N’ Bobs)
https://www.youtube.com/BitsNBobs

ϟ Nathalie Martins (faNATic)
https://www.youtube.com/faNATicOficial

ϟ Tamiris Garcia (Pó de Flu)
https://www.youtube.com/channel/UCKQmXHLuQmUwjRrH7Zy0mjw

E para a nossa releitura ficar ainda mais enriquecedora, entre o final de agosto e o início de setembro vamos fazer uma live no canal da Nathalie para debater a nossa experiência revisitando o universo mágico de Harry Potter. Por isso fiquem ligados aqui no Chovendo Livros e nos outros canais participantes para não perder nenhuma novidade!

Espero muito que vocês também se animem para participa dessa maratona assim como eu. Sem contar que será um prazer revisitar Hogwarts em tão boas companhias. Boas leituras e caprichem no estoque de sapos de chocolate para acompanhar essa viagem ♥

Resenha: Mitologia Nórdica, Neil Gaiman

Sempre adorei mitologias de uma maneira geral, sejam elas criadas por povos antigos e contemporâneos ou aquelas criadas por escritores e diretores nos livros e filmes que tanto amamos. Já passei incontáveis horas pesquisando sobre deuses e criaturas que eram venerados e temidos por diferentes culturas – certamente o tipo de coisa que decidi fazer naquela madrugada em que precisava acordar cedo no outro dia pela manhã. Curiosamente, em meio a gregos, hindus e egípcios, a verdade é que nunca dei muita atenção para os povos nórdicos. Eu sabia somente o básico: Odin, Thor e Loki (e vamos fingir que a Marvel não teve nada a ver com isso). Até que Mitologia Nórdica, de Neil Gaiman, caiu em minhas mãos.

Fruto de uma pesquisa aprofundada do autor, somada ao seu talento inigualável para escrever fantasia, Mitologia Nórdica reconta os mitos nórdicos mais populares através de uma narrativa linear e uma prosa tão deliciosa que vai lhe fazer devorar o livro em uma sentada. Gaiman dá vozes e personalidades marcantes para os deuses de Asgard e para os gigantes de Jotunheim, o que resultou em um apego emocional de minha parte por alguns seres dessa mitologia.

Mas apesar de você concluir a leitura achando que sabe tudo sobre o pessoal que vive na Yggdrasil, existe um porém: nossa civilização possui pouquíssimos registros sobre os mitos nórdicos. Oficialmente, existem registros apenas de Odin, Thor e Loki, e os demais deuses têm suas histórias construídas a partir das aparições nos mitos registrados, bem como uma e outra evidência histórica de adoração dos povos antigos. É importante ter isso em mente para não sair por aí falando que sabe tudo de mitos nórdicos após ler o livro do Gaiman, ok? Aliás, a romantização da mitologia é um ponto que o autor deixa bem claro em seu prefácio: apesar de suas pesquisas, Mitologia Nórdica não tem a pretensão de ser fiel historicamente às suas fontes.

O livro é dividido em capítulos curtos e cada capítulo apresenta um acontecimento da mitologia nórdica em terceira pessoa, através de uma voz narrativa sucinta que escolhe palavras simples para relatar histórias tão antigas ao leitor. Para quem conhece pouco ou nada sobre o tema (meu caso), Mitologia Nórdica acaba por ser uma leitura enriquecedora, além de um primeiro passo para um mergulho de cabeça nas desventuras de Odin e sua prole. Para os estudiosos, profissionais ou amadores, garanto que será muito divertido revisitar os mitos pelo texto agradável de Neil Gaiman.

A edição da Intrínseca possui capa dura com acabamento especial fosco e detalhes em dourado. Toda entrada de capítulo é ilustrada por uma imagem inspirada pelos grafismos escandinavos, assim como a guarda do livro. O papel é amarelado (o que nós leitores amamos, diga-se de passagem) tornando a leitura muito mais agradável.

Gostaria de aproveitar esse post para pedir recomendações sobre obras que falam de mitologia nórdica – sejam elas livros, filmes, séries ou qualquer outra coisa. A leitura de Mitologia Nórdica me deixou mais que curiosa para aprender mais sobre esses mitos e será um prazer receber indicações de vocês. Boas leituras e tomem cuidado com os gigantes de gelo!

Ficha técnica do livro
Título: Mitologia Nórdica
Autor: Neil Gaiman
Tradutor: Edmundo Barreiros
Editora: Intrínseca
Ano: 2017
Gênero: Ficção
Páginas: 288

Este livro foi lido e resenhado em parceria com a Intrínseca. ♥
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Resenha: O Segredo dos Corpos, Dr. Vincent Di Maio e Ron Franscell

Dois mil anos atrás, em 44 a.C., Júlio César foi apunhalado até a morte por senadores romanos em um dos casos de assassinato mais famosos da história. Um médico chamado Antistius foi incumbido de examinar o cadáver do imperador. […] Era o primeiro registro de uma necropsia na história.

Se você já era um assíduo consumidor de séries nos anos 2000, com certeza se deixou fascinar (e viciar) pelos famosos seriados de investigação. Law & Order: SVU e Bones são alguns exemplos populares do gênero e que sobrevivem até hoje. Eu, particularmente, fui uma grande fã desse tipo de programa e, apesar de ser fascinada pelos discursos acalorados nos tribunais, gostava mesmo quando o médico-legista chegava com um laudo que garantia aquele plot twist arrebatador no episódio.

O Segredo dos Corpos é um livro escrito a quatro mãos pelo patologista forense Dr. Vincent Di Maio e pelo escritor Ron Franscell e conta a história do próprio Di Maio, que trabalhou por anos como médico-legista e foi responsável por mais de 9 mil autópsias. Ao contrário do que os seriados de investigação nos mostram e gostaríamos de acreditar, a medicina forense é muito menos emocionante do que parece, e esse é um ponto que o Dr. Vincent Di Maio faz questão de ressaltar logo no segundo capítulo de seu livro. Segundo ele, a quantidade demasiada de vísceras e fluídos corporais, somados aos baixos salários praticados, é o que afasta muitos médicos desse tipo de especialização nos EUA.

Já perto de terminar o curso de medicina, era hora de escolher minha especialidade. Quais eram as opções? Havia uma velha cantilena que dizia: “Clínicos gerais tudo sabem, mas nada fazem; cirurgiões nada sabem, mas tudo fazem; psiquiatras nada sabem e nada fazem; e patologistas tudo sabem e tudo fazem, mas aí já é tarde demais”.

Ao longo das páginas, Di Maio conta sobre sua trajetória pessoal e profissional, dando detalhes suficientes para criarmos uma persona deveras peculiar em nossa imaginação. Proveniente de uma família com muitos médicos, Vincent afirma que a medicina sempre foi a única opção profissional possível. Não que ele sofresse alguma pressão por parte dos pais para seguir na área ou algo do tipo. Di Maio simplesmente sabia o que queria ser e assim o fez.

Juntamente com a história do Dr. Vincent Di Maio temos a descrição romantizada de casos policiais famosos em que ele atuou. É aqui que percebemos a veia literária do autor Ron Franscell, que floreia os fatos na medida certa e deixa tudo muito parecido com os seriados policiais que amamos. Tenho certeza que esses capítulos em especial vão deixar os leitores prendendo a respiração até descobrirem como o caso foi solucionado.

Dentre os casos mostrados, o primeiro deles é sobre o assassinato de Trayvon Martin, um adolescente negro que foi baleado por um vigia de rua voluntário em Sanford, na Flórida (nos EUA, alguns moradores se voluntariam para fazer a ronda do bairro à noite e notificar a polícia sobre eventuais acontecimentos suspeitos). Trayvon foi a uma loja de conveniência comprar Skittles e uma lata de suco e, quando voltava para casa, foi considerado suspeito pelo vigia George Zimmerman. George ligou para a polícia, como manda o protocolo, mas mesmo assim decidiu seguir Trayvon pelas ruas, o que acabou em um confronto direto entre ambos e, logo em seguida, com Trayvon morto com um tiro no peito disparado pela arma de George. Foi por conta dessa tragédia que pessoas no mundo todo passaram a utilizar a hashtag #BlackLivesMatter em mídias sociais para denunciar casos de racismo contra os negros.

Di Maio utiliza esse caso emblemático para destacar alguns pontos importantes que dizem respeito à ciência forense. Um deles é que cabe ao profissional da área determinar a causa e o modo da morte, sem nenhum tipo de julgamento moral. O resultado de uma autópsia pode revelar coisas que os familiares da vítima e até mesmo a mídia não gostariam de saber. No caso de Trayvon Martin, isso gerou debates acalorados em diversos veículos de comunicação, mas eu não darei mais detalhes para guardar a surpresa de vocês para o momento da leitura, ok?

Como patologista forense, tenho um compromisso com a verdade. Presume-se que eu seja imparcial e diga a verdade. Fatos por si só não têm qualidades morais; somos nós que atribuímos moralidade a eles.

Além dos casos de tirar o fôlego (mesmo Di Maio reforçando que a medicina forense não é nada como no cinema e na TV) o que me chamou atenção em O Segredo dos Corpos foram as colocações perspicazes de Vincent sobre a morte. Assim como em Confissões do Crematório (clique aqui para conferir a resenha), é notório como as pessoas que trabalham com a morte desenvolvem uma relação saudável com a mesma, caminhando na direção contrária à nossa sociedade – que prefere fingir que esse tipo de coisa não existe. Costumo sentir que amadureço com esse tipo de leitura, e O Segredo dos Corpos com certeza foi um desses casos.

Publicado pela DarkSide Books, O Segredo dos Corpos impressiona não só pelo conteúdo, mas também pelo seu projeto e acabamento gráfico impecável que são a marca registrada da editora. Leitura obrigatória para estudantes e profissionais de medicina, além de todos aqueles que possuem uma curiosidade mórbida saudável (prazer, Rafaela).

Acredito de todo o coração que se pudéssemos magicamente trazer um médico-legista dos anos 1940 para trabalhar em um necrotério dos dias de hoje, depois de uma tarde de treinamento na nova ciência, ele seria capaz de exercer normalmente sua função. Por quê? Porque as melhores ferramentas de um patologista forense são seus olhos, seu cérebro e seu bisturi. Sem eles, toda a ciência no universo não basta.

Ficha técnica do livro
Título: O Segredo dos Corpos
Autora: Dr. Vincent Di Maio e Ron Franscell
Tradutora: Lucas Magdiel
Editora: DarkSide Books
Ano: 2017
Gênero: Biografia
Páginas: 256

Este livro foi lido e resenhado em parceria com a DarkSide Books. ♥
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Sorteio de aniversário do blog!

Deixei o aniversário do blog passar batido nos outros dois anos, mas felizmente as coisas mudaram nesse terceiro aniversário, risos. Junto com os blogs A world to read e Sai da minha lente, preparamos um super sorteio imperdível! É aquele velho ditado: o aniversário é nosso, mas quem ganha é você.

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Regras da Promoção:
• É obrigatório residir em território brasileiro;
• Perfis falsos ou exclusivos para promoções serão desclassificados;
• A promoção se inicia hoje, 14/04/2017 e termina no dia 14/05/2017;
• O sorteio será feito até o dia 19/05/2017;
• Os blogs tem até o dia 21/05/2017 para conferir se os sorteados cumpriram as regras obrigatórias;
• O resultado está previsto para sair dia 23/05/2017;
• Nenhum dos blogs ou editoras se responsabilizam pelo extravio de prêmios;
• O ganhador tem até 72h para responder o e-mail que será enviado com seus dados completos.
• Cada kit terá apenas um vencedor.
• Como cada blog/editora enviará seu livro, os prêmios podem chegar em dias diferentes!
• Cada blog tem até 45 dias para enviar o livro, contando a partir do dia em que recebermos o endereço do ganhador.

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