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A emocionante jornada do árabe do futuro

Rafaela Paludo 30 de agosto de 2015
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Na época do lançamento de O harém de Kadafi, publicado pela Verus Editora, lembro de ter descoberto o livro através de uma matéria em algum portal de notícias, contando sobre as barbáries que o ex-ditador da Líbia, Muamar Kadafi, cometeu contra o povo e, principalmente, contra as mulheres. O harém de Kadafi é uma literatura jornalística que relata a história de Soraya, uma jovem líbia que foi raptada aos 15 anos para servir de escrava sexual do ditador, juntamente com outras centenas de meninas. Apesar de ser um livro forte e conter relatos de embrulhar o estômago, acho importantíssimo que histórias como a de Soraya não caiam no esquecimento e nos lembrem como uma ditadura é sempre o pior caminho que uma sociedade pode seguir.

Voltando para o presente, em abril desse ano a Editora Intrínseca lançou O árabe do futuro: uma juventude no Oriente Médio (1978-1984), de Riad Sattouf, que logo chamou minha atenção por ter um desenho de um outdoor com o retrato de Muamar Kadafi na capa.

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Em O árabe do futuro, nós acompanhamos a história do autor Riad, que nasceu na França e é filho de mãe francesa e pai sírio. Após concluir o doutorado, seu pai arranjou um emprego de professor adjunto em uma universidade líbia. A família se mudou para Trípoli quando Riad tinha apenas dois anos. Naquela época, em 1980, a Líbia já estava sob o regime de Muamar Kadafi, ou “o Guia”, como ele preferia ser chamado.

Ao chegarem em Trípoli, a família de Riad fica surpresa ao descobrir que as casas não possuem chave. O homem que os recepcionou no aeroporto explicou que o Guia aboliu a propriedade privada, e qualquer pessoa que encontrasse uma casa vazia podia tomá-la como moradia. Essa era uma medida que claramente reforçava o machismo na sociedade árabe, visto que as mulheres eram praticamente obrigadas a ficarem sempre em casa, para garantir que sua propriedade não fosse tomada, enquanto os homens trabalhavam e as crianças brincavam. A comida, naquele tempo, era distribuída semanalmente. Havia um dia específico para os homens e outro para as mulheres, para evitar os contatos “impróprios” das aglomerações.

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Uma das coisas que mais gostei em O árabe do futuro é a maneira leve como somos apresentados à ditadura na Líbia, já que percebemos os fatos através do olhar de uma criança de dois anos. Riad fica deslumbrado ao ver Kadafi na televisão, e cantava junto com seus amigos o hino da ditadura, que pintava o Ocidente como inimigo e a Líbia como aliada de Deus. Seu maior desejo era ter um revólver de brinquedo, para sentir-se mais parecido com o Guia. Kadafi ganhou muitos simpatizantes na época por pregar o avanço da sociedade árabe, bem como a igualdade social entre o povo (ele chamava a Líbia de Estado das Massas). Em certo momento, Kadafi promulgou uma lei obrigando os cidadãos a trocarem de emprego, onde o professor seria camponês e o camponês seria professor. Isso fez com que a família de Riad se mudasse novamente para a França.

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Passado pouco tempo em que ficaram na França, o pai de Riad conseguiu um emprego como professor assistente na Síria, seu país de origem. Naquela época, a Síria também era governada por um regime ditatorial, comandado por Hafez al-Assad. Nessa parte da história, conhecemos um pouco sobre o funcionamento da hierarquia familiar na sociedade árabe. A avó de Riad e matriarca da família é o porto seguro de todos, e até mesmo os homens mais velhos voltam a se comportar como crianças quando estão perto dela. Nos jantares, homens e mulheres ficam em aposentos separados. Os homens preparam e comem os alimentos, e o que sobra é levado até o aposento das mulheres e crianças. Durante essa aventura toda, fiquei morrendo de pena da mãe do Riad, que pacientemente suportou as culturas da Líbia e da Síria, tão diferentes da liberdade francesa, pelo bem de sua família.

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O mais surpreendente no final de O árabe do futuro é que descobrimos que a história continua. Eu fiquei empolgada, pois adorei acompanhar a história de Riad. Só achei que faltou alguma identificação na capa ou na lombada, para não pegar os leitores desprevenidos (tipo eu, hehe). O segundo volume foi lançado em junho desse ano na França, e estou torcendo para que a Intrínseca publique por aqui!

Um detalhe sutil na graphic novel, mas cheio de significados, são as cores escolhidas para colorir os quadrinhos de cada país. Quando estão na França, tudo é azul, e Riad comenta sobre o cheiro apimentado do ar. Na Líbia foi utilizada a cor amarela, e na Síria a cor vermelha. Até mesmo quando a família passa rapidamente por Jersey, a cor muda para verde. Essa diferenciação ajuda o leitor a não se perder durante a história, já que a família de Riad viaja muito.

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Uma curiosidade sobre o autor é que Riad Sattouf colaborou durante oito anos como quadrinista do Charlie Hebdo, deixando o semanário três meses antes do atentado do início desse ano, que resultou na morte de 12 funcionários.

Eu recomendo muito a leitura de O árabe do futuro para todos. Somos bombardeados por livros, filmes, séries e quadrinhos sobre o regime nazista, mas pouco se fala sobre as ditaduras do Oriente Médio. É uma parte importantíssima da história da humanidade, tornada invisível para boa parte do mundo devido à influência norte-americana na mídia. Para quem quiser se aprofundar e ter uma visão menos amena do que aconteceu durante o regime de Muamar Kadafi na Líbia, recomendo o livro O harém de Kadafi, que mencionei no início da resenha, e o documentário O mundo secreto de Muammar Gaddafi. Boas leituras!

SELO_BLOGSPARCEIROS_2015

 

Tags:
Rafaela Paludo

Apaixonada por livros, dias chuvosos e xícaras de chá.

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2 Comments

  1. Juliane 9 de setembro de 2015

    Não posso ficar lendo suas resenhas: acabo sempre com vontade de comprar e ler tudo.
    Esse não era um livro que tinha chamado minha atenção e não é um livro que eu leria por gostar do tema.
    Mas gostei como o assunto foi abordado e adorei a divisão de cores para diferentes lugares, achei genial!!
    Nesse mesmo rumo, tem “A extraordinária viagem do fáquir que ficou preso em um armário Ikea” já leu? Li por causa do tamanho desse título kkkkkkkk
    Fiquei com peninha da mãe do Riad também e dá um nó na garganta quando a gente descobre a situação das mulheres nesses cenários né? É uma injustiça atrás da outra.
    Vou cogitar ler esse quadrinho, achei tudo muito interessante!
    Beijos Rafa!

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