Resenha: A Leitora (Mar de Tinta e Ouro #1), Traci Chee

Imagine um mundo onde não existem livros de nenhum tipo. Pra ser mais exata, nem a escrita existe, e todas as histórias e conhecimentos são passados de forma oral. Ninguém ao menos sabe ler. Ficou desesperado? Pois é sobre essa premissa que a história de A Leitora vai se desenrolar. A Leitora é o primeiro livro, e único publicado até então, pertencente à trilogia Mar de Tinta e Ouro, escrita por Traci Chee. O exemplar que li foi gentilmente cedido pela Plataforma 21 para os membros do Vórtice Fantástico, clube de leitura que faço parte aqui em Porto Alegre.

Logo no primeiro capítulo somos apresentados a Sefia, uma menina de aproximadamente 16 anos, e sua tutora Nin. As duas vivem uma vida de nômades, passando de cidade em cidade na região de Kelanna para vender as peles dos animais que caçam. Por ser conhecida como uma ladra, Nin é uma fugitiva da lei, então sobra para Sefia abordar potenciais clientes e vender a mercadoria. Na volta de uma das peregrinações de Sefia para a cidade, ela presencia dois soldados vestidos de negro torturando Nin e a levando embora com eles. Horrorizada e escondida no meio de arbustos enquanto observava a cena, em seu íntimo, Sefia sabia porque aquelas pessoas vieram atrás delas.

Lembra que eu falei no início que estamos em um mundo onde não existem livros? Pois bem, acontece que Sefia guarda consigo um objeto idêntico ao que conhecemos hoje como um livro. É claro que ela não sabe que aquilo é um livro, o que a faz ficar ainda mais intrigada sobre a importância daquele objeto tão peculiar e que traz páginas e páginas de símbolos que ela não faz ideia do que significam. Tudo o que ela sabe é que foi por conta daquele objeto que sua tia Nin foi sequestrada e que, há anos, fez com que a mesma organização sinistra, liderada pelo maléfico Serakeen, viesse atrás de seu pai.

Sefia está determinada a encontrar Nin e punir as pessoas que a torturaram e a levaram embora. Ela então partirá em uma caçada por Kelanna atrás dos soldados misteriosos, e no meio do caminho encontrará aliados fiéis e também grandes mistérios relacionados ao objeto misterioso que leva consigo. Mal sabe Sefia que ela, o livro, os seus aliados e Serakeen possuem muito mais em comum do que ela podia imaginar.

O universo criado por Traci Chee é bastante original, não podemos negar. Imaginar um mundo onde o principal recurso que permitiu à humanidade registrar seu conhecimento e, consequentemente, evoluir, é uma premissa bem ousada. Eu estava curiosa para saber como isso afetaria na construção de mundo de A Leitora, mas a verdade é que um fato tão importante teve pouca ou nenhuma influência no desenvolvimento de Kelanna. As pessoas possuem todos os tipos de objetos que exigem algum tipo de registro escrito e pesquisa para serem fabricados: armas de fogo, navios, casas, roupas e acessórios relativamente elaborados (botas, cintos, armaduras). O comércio também parece se desenvolver sem nenhum empecilho, existindo inclusive grandes mercados ao ar livre nas cidades, onde Sefia e Nin vendiam suas peles.

Um dos personagens mais interessantes e carismáticos, na minha opinião, surge nos primeiros capítulos e é batizado por Sefia de Arqueiro. O menino misterioso é encontrado pela protagonista preso em uma caixa carregada por uma comitiva de capangas de Serakeen, que ela encontra em suas andanças pela floresta. A caixa em que Arqueiro era mantido prisioneiro possuía gravada no topo o mesmo símbolo presente na capa do objeto misterioso carregado em segredo por Sefia (o livro, no caso). Arqueiro não fala, e ele e Sefia precisam desenvolver uma maneira própria de se comunicar – o que acabou por ser uma maneira muito positiva de representar pessoas mudas em uma história de fantasia. Por esse motivo, algumas decisões tomadas pela autora no final desse primeiro livro me deixaram deveras decepcionada.

Paralela à história de Sefia, acompanhamos a trajetória do capitão Cannek Reed e sua tripulação no navio Corrente da Fé, que buscam por um tesouro nada convencional. Acompanhamos também a história de Lon, um menino que é artista de rua e possui um dom especial (parecido com o que Sefia descobre possuir durante o livro) e por conta disso é convocado por um homem para se tornar um Aprendiz n’A Biblioteca – um lugar onde, pasmem, existem vários livros. A maneira como essas duas histórias se entrelaçam com a trajetória de Sefia são dois pontos altos no livro. É percebido que Traci Chee criou uma maneira muito particular de como o espaço e o tempo funcionam em seu universo e isso é o que estou mais curiosa para saber em detalhes nos livros posteriores.

A estrela de A Leitora, no entanto, está no projeto gráfico do livro, desenvolvido especialmente para conversar com a própria história e com nós leitores. De mensagens escondidas e palavras que precisam ser caçadas entre as páginas até borrões e parágrafos riscados em que é impossível ler o que está escrito, o projeto gráfico foi um show à parte e, na minha opinião, se destacou mais que o enredo criado pela autora, que acabou por não me surpreender tanto assim.

A Leitora traz metáforas bonitas sobre o que é um livro e como pessoas, em seu universo particular, também são grandes livros contendo seu passado, presente e futuro. Conforme descobrimos que os livros existem, sim, nesse universo, e que somente algumas pessoas podem ter acesso a eles, podemos levantar questionamentos interessantes sobre censura. Porém, em certo momento, a autora define que o ato de conseguir ler (tanto livros como pessoas) é algo mágico, o que pra mim só reforçou o fato de existirem pessoas “especiais” e que merecem ter acesso ao conhecimento.

Entendo que esse é apenas o primeiro livro de uma trilogia e que muita coisa ainda está por vir, mas acredito que um livro deve bastar-se por si. A Leitora abre muitos questionamentos e possibilidades e acaba por não responder nada ao leitor nesse primeiro volume. Isso me causou mais frustração do que curiosidade para continuar a trilogia, mesmo que eu pretenda fazer isso de qualquer maneira já que não consigo controlar a minha própria curiosidade.

E você, já leu ou está curioso(a) para ler A Leitora? Conte nos comentários quais as suas expectativas em relação à história e o que você achou da resenha. Boas leituras fantásticas!

Ficha técnica do livro
Título: A Leitora
Autora: Traci Chee
Tradutor: Edmundo Barreiros
Editora: Plataforma 21
Ano: 2017
Gênero: Ficção
Páginas: 464

Adquirindo seu exemplar por este link, você ajuda o Chovendo Livros a crescer!

 

Posted by Rafaela Paludo

Apaixonada por livros, dias chuvosos e xícaras de chá.

Leave a Reply

Required fields are marked *.