Resenha: Minha vida fora dos trilhos

Quem já acompanha o Chovendo Livros sabe que, no ano passado, rolou por aqui uma semana especial do livro Em algum lugar nas estrelas (clique aqui para conferir). O estilo da autora Clare Vanderpool fez desta uma leitura muito especial na época, pois explorava de forma sensível e original temas como o autismo, a morte e a amizade. Por esse motivo, quando a DarkSide Books anunciou em maio que publicaria outro livro da autora, intitulado Minha vida fora dos trilhos, eu logo fiquei empolgada para ler – algo me dizia que Vanderpool me conduziria novamente por uma narrativa mágica e inesquecível. Spoiler: eu estava certa.

Em Minha vida fora dos trilhos nós acompanhamos a jornada de Abilene, uma menina de 12 anos que foi enviada pelo pai para a pequena cidade de Manifest, sob a alegação de que ele precisava realizar um trabalho pesado na estrada de ferro de Iowa e não considerava aquele um lugar adequado para Abilene. Ao chegar em Manifest, nossa protagonista conhece Shady, o homem que fica encarregado de cuidar dela até seu pai retornar do serviço, dali cerca de um mês. Manifest é o que podemos classificar como uma cidadezinha do interior largada às traças. Mas o que, num primeiro momento, parece um lugar entediante, acaba por revelar grandes histórias.

 Percebi que ia levar um tempo para aprender o jeito daquela terra. Mas não tinha problema. Essas meninas eram muito simpáticas, a Coca-Cola descia bem e, no outono, eu estaria longe, bem longe, disse a mim mesma, empurrando para o lado a insegurança que ia e voltava. (p. 48)

Abilene e seu pai, Gideon, sempre estiveram acostumados a viajar de trem (às vezes clandestinamente) para diversos lugares dos Estados Unidos. A vida nômade acaba por se tornar o verdadeiro lar de ambos, e por esse motivo a menina não consegue enxergar Manifest como um lar – mesmo porque, sua estadia ali será temporária. Esse pensamento distancia Abilene dos outros habitantes. Há uma passagem interessante em que ela nos conta sobre o que classifica como universais: pessoas que falam e se comportam de maneira tão previsível que você muito provavelmente encontrará um exemplar em cada lugar que conhecer. Essa demonstração inocente de preconceito é uma atitude muito identificável, já que estamos acostumados a fazer julgamentos sem antes conhecermos as pessoas.

Um dia, Abilene encontra, escondido sob o assoalho do seu quarto na casa de Shady, uma caixa contendo vários objetos peculiares, entre eles uma isca de anzol e um charuto. Mas o que mais chama a atenção dela é uma carta, datada de 1918, que, dentre outras coisas, informa que um tal Cascavel está vigiando a cidade. Isso, obviamente, intriga Abilene, que junto de duas amigas que conheceu na escola começa a explorar Manifest atrás de pistas de quem poderia ser Cascavel.

Em uma de suas andanças pela cidade, Abilene conhece a srta. Sadie, uma mulher solitária que vive um uma casa soturna, protegida por portões de ferro peculiarmente decorados com a palavra Perdição. A srta. Sadie prende a atenção de Abilene quando começa a falar sobre os objetos contidos na caixa encontrada pela menina, mencionando até mesmo os nomes do remetente e do destinatário contidos na carta que falava sobre Cascavel: Ned e Jinx. Empolgada com as histórias contadas pela vidente e vislumbrando a possibilidade de conseguir desvendar a identidade de Cascavel, Abilene passa a descobrir mais sobre o passado de Manifest e seus habitantes, e principalmente sobre os protagonistas da carta que encontrou.

Quando há sofrimento, procuramos um motivo. E é mais fácil encontrar esse motivo dentro de si mesmo. (p. 143)

O livro se passa em um contexto pós Primeira Guerra Mundial até a Grande Depressão dos Estados Unidos e se aproveita de alguns acontecimentos desse período para compor a jornada de seus personagens. Apesar de ser uma cidade fictícia, não foi à toa que a autora escolheu situar Manifest no estado do Kansas, conhecido por abrigar imigrantes latinos, europeus e africanos ao longo de sua história. Foi nesse período também que a Ku Klux Klan ganhou força nos EUA, instaurando uma sensação generalizada de medo e repressão em negros e imigrantes.

Os capítulos de Minha vida fora dos trilhos são intercalados entre as aventuras de Abilene, o mistério envolvendo Ned e Jinx (remetente e destinatário da carta contida dentro da caixa) e alguns recortes do jornal local, contendo reportagens que complementam a história contada pela autora. Aliada a capítulos curtos, essa troca de focalizadores torna a leitura rápida e divertida, e os ganchos no final de cada capítulo não vão deixar você largar o livro.

Como uma fã antiga de Em algum lugar nas estrelas, posso garantir que Clare Vanderpool consegue reproduzir em Minha vida fora dos trilhos (que foi escrito antes, apesar de publicado aqui no Brasil posteriormente) o mesmo clima saudosista. Enquanto no primeiro ela se vale da música pra evocar uma época passada, aqui nós temos o projeto gráfico auxiliando nessa tarefa, com os recorte de jornal diagramados como antigamente. A história de Ned e Jinx também se encarrega de nos levar para tempos distantes, onde a Primeira Guerra Mundial teve início e os Estados Unidos receberam um grande número de imigrantes advindos dos mais diversos lugares do mundo. É através dos dois que descobrimos também os segredos escondidos em Manifest e o passado de alguns moradores, que surpreendem Abilene e, com certeza, também surpreenderão você.

Naquela noite houve solidariedade entre as essas reunidas no bar de Shady. Uma a uma, todas saíram das suas trincheiras e se aventuraram na terra de ninguém. (p. 176)

Minha vida fora dos trilhos contém a sensibilidade característica da autora para lidar com temas complexos. Talvez sua escolha por protagonistas crianças auxilie o leitor a também ver o drama de almas marcadas pela Primeira Guerra Mundial com uma lente mais inocente e otimista, que nos convence que, apesar de todas as dificuldades, ainda podemos dar a volta por cima e superar o que um dia nos derrubou.

Eu escrevi essa resenha ouvindo a excelente playlist montada pela DarkSide Books. Me ajudou muito a resgatar o clima do livro, portanto recomendo que vocês também escutem quando pegarem Minha vida fora dos trilhos para ler:

Espero que tenham gostado da resenha. Boas leituras nostálgicas!

Ficha técnica do livro
Título: Minha vida fora dos trilhos
Autora: Clare Vanderpool
Tradutora: Débora Isidoro
Editora: Darkside Books
Ano: 2017
Gênero: Ficção
Páginas: 320

Este livro foi lido e resenhado em parceria com a DarkSide Books. ♥
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Posted by Rafaela Paludo

Apaixonada por livros, dias chuvosos e xícaras de chá.

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