Resenha: O Segredo dos Corpos, Dr. Vincent Di Maio e Ron Franscell

Dois mil anos atrás, em 44 a.C., Júlio César foi apunhalado até a morte por senadores romanos em um dos casos de assassinato mais famosos da história. Um médico chamado Antistius foi incumbido de examinar o cadáver do imperador. […] Era o primeiro registro de uma necropsia na história.

Se você já era um assíduo consumidor de séries nos anos 2000, com certeza se deixou fascinar (e viciar) pelos famosos seriados de investigação. Law & Order: SVU e Bones são alguns exemplos populares do gênero e que sobrevivem até hoje. Eu, particularmente, fui uma grande fã desse tipo de programa e, apesar de ser fascinada pelos discursos acalorados nos tribunais, gostava mesmo quando o médico-legista chegava com um laudo que garantia aquele plot twist arrebatador no episódio.

O Segredo dos Corpos é um livro escrito a quatro mãos pelo patologista forense Dr. Vincent Di Maio e pelo escritor Ron Franscell e conta a história do próprio Di Maio, que trabalhou por anos como médico-legista e foi responsável por mais de 9 mil autópsias. Ao contrário do que os seriados de investigação nos mostram e gostaríamos de acreditar, a medicina forense é muito menos emocionante do que parece, e esse é um ponto que o Dr. Vincent Di Maio faz questão de ressaltar logo no segundo capítulo de seu livro. Segundo ele, a quantidade demasiada de vísceras e fluídos corporais, somados aos baixos salários praticados, é o que afasta muitos médicos desse tipo de especialização nos EUA.

Já perto de terminar o curso de medicina, era hora de escolher minha especialidade. Quais eram as opções? Havia uma velha cantilena que dizia: “Clínicos gerais tudo sabem, mas nada fazem; cirurgiões nada sabem, mas tudo fazem; psiquiatras nada sabem e nada fazem; e patologistas tudo sabem e tudo fazem, mas aí já é tarde demais”.

Ao longo das páginas, Di Maio conta sobre sua trajetória pessoal e profissional, dando detalhes suficientes para criarmos uma persona deveras peculiar em nossa imaginação. Proveniente de uma família com muitos médicos, Vincent afirma que a medicina sempre foi a única opção profissional possível. Não que ele sofresse alguma pressão por parte dos pais para seguir na área ou algo do tipo. Di Maio simplesmente sabia o que queria ser e assim o fez.

Juntamente com a história do Dr. Vincent Di Maio temos a descrição romantizada de casos policiais famosos em que ele atuou. É aqui que percebemos a veia literária do autor Ron Franscell, que floreia os fatos na medida certa e deixa tudo muito parecido com os seriados policiais que amamos. Tenho certeza que esses capítulos em especial vão deixar os leitores prendendo a respiração até descobrirem como o caso foi solucionado.

Dentre os casos mostrados, o primeiro deles é sobre o assassinato de Trayvon Martin, um adolescente negro que foi baleado por um vigia de rua voluntário em Sanford, na Flórida (nos EUA, alguns moradores se voluntariam para fazer a ronda do bairro à noite e notificar a polícia sobre eventuais acontecimentos suspeitos). Trayvon foi a uma loja de conveniência comprar Skittles e uma lata de suco e, quando voltava para casa, foi considerado suspeito pelo vigia George Zimmerman. George ligou para a polícia, como manda o protocolo, mas mesmo assim decidiu seguir Trayvon pelas ruas, o que acabou em um confronto direto entre ambos e, logo em seguida, com Trayvon morto com um tiro no peito disparado pela arma de George. Foi por conta dessa tragédia que pessoas no mundo todo passaram a utilizar a hashtag #BlackLivesMatter em mídias sociais para denunciar casos de racismo contra os negros.

Di Maio utiliza esse caso emblemático para destacar alguns pontos importantes que dizem respeito à ciência forense. Um deles é que cabe ao profissional da área determinar a causa e o modo da morte, sem nenhum tipo de julgamento moral. O resultado de uma autópsia pode revelar coisas que os familiares da vítima e até mesmo a mídia não gostariam de saber. No caso de Trayvon Martin, isso gerou debates acalorados em diversos veículos de comunicação, mas eu não darei mais detalhes para guardar a surpresa de vocês para o momento da leitura, ok?

Como patologista forense, tenho um compromisso com a verdade. Presume-se que eu seja imparcial e diga a verdade. Fatos por si só não têm qualidades morais; somos nós que atribuímos moralidade a eles.

Além dos casos de tirar o fôlego (mesmo Di Maio reforçando que a medicina forense não é nada como no cinema e na TV) o que me chamou atenção em O Segredo dos Corpos foram as colocações perspicazes de Vincent sobre a morte. Assim como em Confissões do Crematório (clique aqui para conferir a resenha), é notório como as pessoas que trabalham com a morte desenvolvem uma relação saudável com a mesma, caminhando na direção contrária à nossa sociedade – que prefere fingir que esse tipo de coisa não existe. Costumo sentir que amadureço com esse tipo de leitura, e O Segredo dos Corpos com certeza foi um desses casos.

Publicado pela DarkSide Books, O Segredo dos Corpos impressiona não só pelo conteúdo, mas também pelo seu projeto e acabamento gráfico impecável que são a marca registrada da editora. Leitura obrigatória para estudantes e profissionais de medicina, além de todos aqueles que possuem uma curiosidade mórbida saudável (prazer, Rafaela).

Acredito de todo o coração que se pudéssemos magicamente trazer um médico-legista dos anos 1940 para trabalhar em um necrotério dos dias de hoje, depois de uma tarde de treinamento na nova ciência, ele seria capaz de exercer normalmente sua função. Por quê? Porque as melhores ferramentas de um patologista forense são seus olhos, seu cérebro e seu bisturi. Sem eles, toda a ciência no universo não basta.

Ficha técnica do livro
Título: O Segredo dos Corpos
Autora: Dr. Vincent Di Maio e Ron Franscell
Tradutora: Lucas Magdiel
Editora: DarkSide Books
Ano: 2017
Gênero: Biografia
Páginas: 256

Este livro foi lido e resenhado em parceria com a DarkSide Books. ♥
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Posted by Rafaela Paludo

Apaixonada por livros, dias chuvosos e xícaras de chá.

One comment

  1. Como eu tava com saudades do seu bloguinho Rafa!
    (assiste iZombie! Nunca te pedi nada haha – tem o lance do médico legista e os mistérios do assassinato)
    Eu não sabia que essa era a origem do #BlackLivesMatter e agora fiquei curiosa em relação ao resultado da autópsia de Trayvon Martin :O
    Esse é um livro da Darkside que eu teria solicitado se fosse do meu selo, tenho muita curiosidade de ler.
    Beijos Rafa (não deixa o bloguinho morrer!)

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